| Seu cérebro tem fome de quê? |
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| Ter, 13 de Setembro de 2011 10:20 |
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De acordo com Wenk, o doce contém um número grande de psicoativos. “O pó de cacau tem substâncias similares à cafeína, às anfetaminas e à maconha, além de liberar opiáceos no corpo”, diz. Em seu livro mais recente, Your Brain On Food (A comida no seu cérebro, sem edição no Brasil), o cientista mostra que não é só o chocolate — quase tudo que comemos, seja droga ou comida, tem efeito em nosso funcionamento cerebral. Ao longo da história, aliás, nutrientes e psicotrópicos se confundiram diversas vezes. Em cada ocasião que o café surgia numa determinada cultura, era bem recebido como alimento. “Depois, passava a ser visto com temor pelo seu efeito estimulante e políticos mandavam fechar casas de café”, diz Wenk. A diferença está baseada em fatores culturais. Tanto que sensações de prazer, de relaxamento, de euforia e até alucinações podem vir quando ingerimos alimentos comuns, do dia a dia, como açafrão ou erva-doce, que contêm substâncias capazes de mudar nosso estado psíquico, por exemplo. “Ao estudar como esses químicos interagem com o comportamento humano, podemos manipular nosso humor e até desvendar o funcionamento do corpo.” Parentesco ancestral Nosso cérebro tem pelo menos 100 neurotransmissores circulando entre suas diversas áreas. São substâncias cuja função é ligar os diversos neurônios em atividade, passando as mensagens que precisam ser transmitidas para o resto do corpo. Dependendo do neurotransmissor a mensagem pode ser: acorde, se mexa, salive, urine, lembre, alegre-se. Se os químicos presentes na comida afetam nosso comportamento, é justamente porque interagem com esses neurotransmissores, aumentando ou cortando seus efeitos. Isso só acontece porque seres humanos e vegetais (e todos os seres vivos, na verdade, já que tivemos um antepassado comum, o mesmo organismo unicelular) dividem a mesma história evolutiva. As bananas ainda verdes, por exemplo, contêm serotonina, o mesmo neurotransmissor encontrado em nosso corpo. “Quando comemos a banana antes de amadurecer, ela acaba interagindo com receptores de serotonina que temos no intestino, causando diarreias”, diz. Uma picada de inseto só causa algum estrago porque o veneno tem a ver com algo que também é encontrado em nosso corpo. “Se viajássemos para outro planeta e fôssemos picados por alguma criatura desconhecida, não nos aconteceria nada, porque não temos um passado comum.” Claro que tudo tem a ver com quantidade. “É uma questão de dose. Se comermos o suficiente de determinado alimento, haverá uma consequência”, diz Wenk. Um bom exemplo é a noz-moscada, usada como tempero. Na quantidade que consumimos, normalmente é inócua. “Mas se você comer uma inteira, alucinará por dias”, diz. Esse é um exemplo extremo de um alimento que age em um neurotransmissor conhecido como dopamina. Ele é responsável por nos fazer sentir prazer em atividades como o sexo e alimentação. É por isso que, em quantidades médias, dá uma sensação de euforia. O mesmo princípio vale para várias outras comidas. Até mesmo uma substância aparentemente inocente como o leite causa suas alterações em nossa percepção. Nosso intestino converte alguns de seus componentes em opiáceos, tipo de substância presente na morfina e na heroína. Sua função no nosso corpo é regular a sensação de dor, causando euforia e prazer quando em grandes quantidades. O livro explica que temos uma barreira entre o intestino e o sangue, e também outra entre o sangue e o cérebro, que acabam bloqueando a ação de boa parte desses químicos. Entretanto, em crianças abaixo de dois anos de idade, essas barreiras não estão completamente formadas. Entre os recém-nascidos, beber leite acaba gerando uma experiência parecida com a da heroína. “A recompensa é tão boa que a criança quer voltar a mamar de novo e de novo. O que é bom, acaba garantindo sua sobrevivência”, diz Wenk. Se nosso próprio corpo tira vantagem das características psicoativas de nossa dieta para aprimorar a sobrevivência, por que não fazer o mesmo conscientemente? Conhecer essas características pode, inclusive, nos ajudar a prevenir os efeitos ruins do envelhecimento e doenças degenerativas, como o mal de Alzheimer. Pesquisas indicam que pessoas com o risco genético da doença, se comerem muitos derivados de leite, têm mais chance de desenvolvê-la. “Mas, se beberem um pouquinho de álcool todo dia, como uma ou duas latas de cerveja, o risco diminui”, afirma o neurocientista. O risco também é reduzido se comermos menos, já que metabolizar a comida produz resíduos que, em excesso, aceleram o envelhecimento do cérebro. “Se meu livro é sobre comida no cérebro, essa é a sua antítese: consumir o mínimo possível de calorias por dia é o melhor que você pode fazer por ele.” Para Wenk, a comida pode nos fazer mal ou bem, nos deixar alegres ou tristes. Já escolhemos, inconscientemente, quais químicos irão agir em nosso cérebro. O que pode melhorar é estarmos no controle consciente desse processo. No dia em que deu a entrevista, Wenk comeu granola com leite no café da manhã, mas não dispensou uma dose de tequila à noitinha. “Tomo sempre, já que o álcool em pequenas quantidades serve para prevenir o Alzheimer.” Fonte: Revista Galileu |



